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terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Classicismo - A poesia lírica de Luís Vaz de Camões



Classicismo - A poesia lírica de Luís Vaz de Camões
        A maior parte da obra de Cam­­­­­ões compõe-se de sonetos e redondilhas. O soneto é composto de versos decassílabos (dez sílabas poéticas), distribuídos em dois quartetos e dois tercetos. Foi chamado de “medida nova” por oposição à “medida velha”, que eram as tradicionais redondilhas (estrofes de cinco ou sete sílabas).
        Pela análise dos textos apresentados a seguir, veremos alguns dos principais temas da lírica de Camões.
1.   OS EFEITOS CONTRADITÓRIOS DO AMOR.

      Como podemos resistir aos efeitos do amor? Quando ele nos invade, ficamos perturbados, temos sensações contraditórias, não conseguimos raciocinar direito.
      Não é um tema novo. Já na Antiguidade, o amor era visto como uma espécie de cegueira, uma doença da razão, uma enfermidade de consequências às vezes devastadoras. Nas cantigas de amor medievais, os trovadores exprimiam seu sofrimento, a coita, provocada pela desorientação das reações do artista diante de sua Senhora, de sua Dona.
                                                       
     O poeta buscou analisar o sentimento amoroso racionalmente, por meio de uma operação de fundo intelectual, racional, valendo-se de raciocínios próximos da lógica formal. Mas como o amor é um sentimento vago, imensurável, Camões acabou por concluir pela ineficácia de sua análise, desembocando no paradoxo do último verso. O sentir e o pensar são movimentos antagônicos: o sentir deseja e o pensar limita, e, como o poeta não podia separar aquilo que sentia daquilo que pensava, o resultado, na prática textual, só podia ser o acúmulo de contradições e paradoxos. Essa feição contraditória e o jogo de oposições aproximam Camões do Maneirismo e, no limite, do Barroco.

      Camões refletiu sobre isso e perguntou-se o que é o amor?
Leia o poema:
QUARTETOS
1. Amor é um fogo que arde sem se ver,
2. É ferida que dói e não se sente;
3. É um contentamento descontente;
4. É dor que desatina sem doer.

5. É um não querer mais que bem querer;
6. É um andar solitário entre a gente;
7. É nunca contentar-se de contente;
8. É um cuidar que ganha em se perder.

TERCETOS

9. É querer estar preso por vontade;
10. É servir a quem vence, o vencedor;
11. É ter com quem nos mata lealdade.

12. Mas como causar pode seu favor
13. Nos corações humanos amizade,
14. Se tão contrário a si é o mesmo Amor

       Os versos têm estrutura bimembre e contêm afirmativas que se repartem em enunciados contrários (antitéticos). Essas oposições simetricamente dispostas nos versos, acumulam-se em forma de gradação (clímax), para desembocar na desconcertante interrogação/conclusão do último verso sobre os efeitos do amor. As contradições, por vezes, são aparentes porque o segundo membro do verso funciona como complemento do primeiro, especificando-o e tornando-o ainda mais expressivo, quando confronta duas realidades diversas: uma sensível ("ferida que dói") e uma espiritual, que transcende a primeira ("e não se sente").

       É o caso do 1º, 2º, 4º e 5º versos. No 1º verso, por exemplo, o segundo membro ("sem se ver" significa interiormente;) no 2º verso, o Amor ferida que dói (exteriormente) e não se sente" (interiormente); no 4º verso, o Amor "é dor que desatina (exteriormente) "sem doer" (interiormente) e, no 5º verso, a noção é a de que não é possível querer mais, de tanto que se quer, de tanto que se ama. Mesmo que se tome o referencial fogo como elemento de contraste entre os dois membros desses versos, este mesmo fogo, contraditoriamente, "arde sem se ver".

       A reiteração do verbo ser ("É") no início dos versos, do 2º ao 11º, configura uma sucessão de anáforas, uma cadeia anafórica. O soneto inicia-se e termina com a mesma palavra - Amor -, sentimento contraditório, que é o tema da composição.

Agora responda.

1.     Nesse soneto, Camões explorou sistematicamente uma figura de linguagem. Qual foi? E por que ele usou tal figura?
2.     Nas três primeiras estrofes, o eu lírico descreve os efeitos causados pelo amor.
a.     Que versos citam efeitos que poderíamos chamar de físicos, como se afetassem o nosso próprio corpo?
b.     Que versos citam efeitos psicológicos, que mexem com nossos desejos?

3.     Podemos dizer que nos versos do primeiro terceto constituem uma figura de linguagem chamada gradação? Por quê?
4.     O último terceto:
a.     Revela que o eu lírico, finalmente, compreendeu por que o amor aproxima as pessoas.
b.     Revela que o eu lírico se sente perplexo com os efeitos causados pelo amor nos corações humanos.
c.     Revela que o eu lírico não consegue entender como o amor, sendo em si tão contraditório, pode causar amizade nos corações humanos.
d.     Revela que o eu lírico acha normal que o amor seja tão contraditório a si mesmo e, por isso, não possa causar “nos corações humanos amizade”.
5.     Nesse soneto:
a.     O poeta comenta um caso particular de sentimento amoroso.
b.     O poeta reflete sobre como o amor age de diferentes maneiras sobre as pessoas.
c.     O poeta percebe que é impossível generalizar sobre os efeitos do amor nos seres humanos.
d.     O poeta reflete sobre a essência do amor, universalizando a questão.
6.     Você observou que o poeta escreveu Amor, com inicial maiúscula, e não amor, com inicial minúscula. Esse fato tem a ver com a questão anterior. Explique.

2.   A SAUDADE DO SER AMADO

Alma minha gentil, que te partiste
Tão cedo desta vida, descontente,
Repousa lá no Céu eternamente,
E viva eu cá na terra sempre triste.

Se lá no assento etéreo, onde subiste,
Memória desta sida se consente,
Não te esqueças daquele amor ardente
Que já nos olhos meus tão puro viste.

E se vires que pode merecer-te
Alguma cousa a dor que me ficou
Da mágoa, sem remédio, de perder-te,

Roga a Deus, que teus anos encurtou,
Que tão cedo de cá me leve a ver-te,
Quão cedo de meus olhos te levou


       O soneto, que os biógrafos associam à morte de Dinamene, chinesa com quem Camões teria vivido em Macau, é dos mais conhecidos. Segundo a tradição, acusado de delitos administrativos, Camões e Dinamene teriam sido levados da China para a Índia, onde seria julgado o poeta. Na viagem, por volta de 1560, o navio naufraga nas costa do Camboja, junto à foz do rio Mekong.

       Camões teria conseguido salvar-se e salvar Os Lusíadas, que trazia quase concluído, mas teria perdido Dinamene, a sua "alma gentil", relembrada em elevado tom elegíaco, quase místico.

       O platonismo revela-se, no soneto, pela sublimação eternizadora da amada, a partir de sua morte. O poeta contempla a amada transubstanciada em puro espírito ("lá no assento etéreo"), por via do muito amar.

       O apelo aos sentidos é transcendentalizado, imaterializado buscando Dinamene no Céu, em Deus, entendidos como valores filosóficos, míticos, e não apenas religiosos ou cristãos. A morte implica uma espécie de purificação. A amada, que partiu para esse "mundo das ideias e formas eternas", também se torna objeto de elevação e saudade. Mas a "reminiscência", neste caso, tem mão dupla: do poeta, que se eleva à beleza imaterial da amada, como usual, e também na direção oposta, pois o poeta sugere a possibilidade de que a amada se lembre dele, "lá do assento etéreo".

       O poeta equilibra a expressão de seus transes existenciais com a disciplina clássica.

       Emoção e razão, expressão pessoal e imitação modelam uma dicção sóbria, contida, mas nem por isso menos comovente. Mesmo quando aproveita o material autobiográfico, não há o "descabelamento" desesperado dos românticos. A morte da amada serve também ao exercício poético da imitação, no caso, do modelo petrarquista: "Quest anima gentil che si diparte / Anzi tempo chiamata a l'altra vita".

       Observe que, curiosamente, em "Alma minha..." o ouvido de Camões foi indiferente a uma cacofonia ("maminha"), que hoje seria de todo modo evitada.

       A situação conflitante que o poeta retrata projeta uma tensão que se aproxima do Maneirismo e, por essa via do Barroco: a presença da morte, o tom fatalista, o dualismo que opõe vida e morte, passado e presente, serenidade e sofrimento.

       Além do tema amoroso, Camões se faz cantor dos desconcertos do mundo. Espírito muito atento à sua época, tem plena consciência de que tudo muda, nada é eterno.

       O homem, embora queira sempre atingir o ideal e a perfeição, depara-se com a terrível restrição imposta pela própria condição humana. O poeta chega à conclusão de que não existe o absoluto ou o eterno, restando a ele divagar sobre o real e o ideal, o eterno e o transitório, a morte e a vida, o pessoal e o universal. Nesses pares, encontram-se as mais profundas tensões que a lírica já deixou transparecer.
                                
Agora responda.
1.       Na primeira estrofe, há dois advérbios que reforçam a ideia da distância que há entre o poeta e sua amada.
a.       Quais são eles?
b.      A que se refere cada um deles?

2.       Que eufemismo foram usados na primeira estrofe para falar da morte?
3.       Que expressão, na segunda estrofe, retoma a ideia de Céu da primeira estrofe?
4.       Nas últimas três estrofes, o eu lírico faz dois pedidos à sua amada. Quais são eles/
5.       Esses dois  pedidos são subordinados a duas hipóteses. Quais?
6.       Considere este comentário crítico:
“O platonismo, nesse soneto, consiste em ver a mulher amada como ser que passou a pertencer, com a morte, a um universo mais puro e mais verdadeiro (...)_, não mais rebaixado pelos sentidos e pela matéria deste mundo.(...) Mas é importante lembrar que essa visão espiritualizada da mulher em Camões combina-se com fortes sugestões eróticas, com intenso desejo de acesso às formas femininas, ainda que isto se diga discretamente(...)”.
(RODRIGUES, A. Medina. Sonetos de Camões, São Paulo: Ática, 1993.)

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