Google+ Followers

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Crônicas de Luis Fernando Veríssimo




1. Conquistando um coração.

Quando se deseja realmente conquistar um coração, é preciso que antes já tenhamos conseguido conquistar o nosso, é preciso que ele já tenha sido explorado nos mínimos detalhes,
que já se tenha conseguido conhecer cada cantinho, entender cada espaço preenchido e aceitar cada espaço vago.
...e então, quando finalmente esse coração for conquistado, quando tivermos nos apoderado dele,  vai existir uma parte de alguém que seguirá conosco.
Uma metade de alguém que será guiada por nós e o nosso coração  passará a bater por conta desse outro coração.
Eles sofrerão altos e baixos sim, mas com certeza haverá instantes, milhares de instantes de alegria.
Baterá descompassado muitas vezes e sabe por que?
Faltará a metade dele que ainda não está junto de nós.
Até que um dia, cansado de estar dividido ao meio, esse coração chamará a sua outra parte e alguém por vontade própria, sem que precisemos roubá-la ou furtá-la nos entregará a metade que faltava.
... e é assim que se rouba um coração, fácil não?
Pois é, nós só precisaremos roubar uma metade,
a outra virá na nossa mão e ficará detectado um roubo então!
E é só por isso que encontramos tantas pessoas pela vida a fora que dizem que nunca mais conseguiram amar alguém... é simples...
é porque elas não possuem mais coração, eles foram roubados, arrancados do seu peito, e somente com um grande amor ela terá um novo coração, afinal de contas, corações são para serem divididos, e com certeza esse grande amor repartirá o dele com você

                                                                                                                          Luís Fernando Veríssimo


2. PAPOS

“- Me disseram...

- Disseram-me

- Hein?

- O correto é ‘disseram-me’. Não ‘me disseram’.

- Eu falo como quero. E ti digo mais... Ou ‘digo-te’?

- O quê?

- Digo-te que você...

- O ‘te’ e o ‘você’ não combinam.

- Lhe digo?

- Também não. O que você ia me dizer?

- Que você ta sendo grosseiro, pedante e chato. E que vou ti partir a cara. Lhe partir a cara. Partir a sua cara. Como é que se diz?

- Partir-te a cara.

- Pois é. Partir-la hei de, se você não parar de me corrigir. Ou corrigir-me.

- É para o seu bem.
 

- Dispenso as suas correções. Vê se esquece- me. Falo como bem entender. Mas uma correção e eu...

- O quê?

- O mato.

- Que mato?

- Mato-o. Mato-lhe. Matar- lhe- ei- te. Ouviu bem?

- Eu só estava querendo...

- Pois esqueça- o e pára- te. Pronome no lugar certo é para elitismo.

- Se você prefere falar errado...

- Falo como todo mundo fala. O importante é me entenderem. Ou entenderem- me?

- No caso... Não sei.

- Ah, não sabes? Não o sabes? Sabes- lo não?

- Esquece.

- Não. Como ‘esquece’ ou ‘esqueça’? Ilumine- me. Mo diga. Ensines- lo- me, Vamos.

- Depende.

- Depende. Perfeito. Não o sabes. Ensinar- me- lo- ias se o soubesse, mas não sabes-o.

- Está bem, está bem. Desculpe. Fale como quiser.

- Agradeço-lhe a permissão para falar errado que me dás. Mas não posso mais dizer-lo-te o que dizer-te-eia.

- Por quê?

- Porque, como todo esse papo, esqueci-lo.”

Veríssimo, Luis FernandoNovas comédias da vida pública – a versão dos afogados. Porto Alegre: L&PM, 1997.
 

 
3. Brincadeira

Começou como uma brincadeira. Telefonou para um conhecido e disse:

- Eu sei de tudo.

Depois de um silêncio, o outro disse:

- Como é que você soube?

- Não interessa. Sei de tudo.

- Me faz um favor. Não espalha.

- Vou pensar.

- Por amor de Deus.

- Está bem. Mas olhe lá, hein?

Descobriu que tinha poder sobre as pessoas.

- Sei de tudo.

- Co- como?

- Sei de tudo.

- Tudo o quê?

- Você sabe.

- Mas é impossível. Como é que você descobriu?


A reação das pessoas variava. Algumas perguntavam em seguida:

- Alguém mais sabe?

Outras se tornavam agressivas:

- Está bem, você sabe. E daí?

- Daí nada. Só queria que você soubesse que eu sei.

- Se você contar para alguém, eu...

- Depende de você.

- De mim, como?

- Se você andar na linha, eu não conto.

- Certo.

Uma vez, parecia ter encontrado um inocente.

- Eu sei de tudo.

- Tudo o quê?

- Você sabe.

- Não sei. O que é que você sabe?

- Não se faz de inocente.

- Mas eu realmente não sei.
 
- Vem com essa.

- Você não sabe de nada.

- Ah, quer dizer que existe alguma coisa pra saber, mas eu é que não sei o que é?

- Não existe nada.

- Olha que eu vou espalhar...

- Pode espalhar que é mentira.

- Como é que você sabe o que eu vou espalhar?

- Qualquer coisa que você espalhar será mentira.

- Está bem. Vou espalhar.

Mas dali a pouco veio um telefonema.

- Escute. Estive pensando melhor. Não espalha nada sobre nada daquilo.

- Aquilo o quê?

- Você sabe.

Passou a ser temido e respeitado. Volta e meia alguém se aproximava dele e sussurrava:

- Você contou para alguém?

- Ainda não.

- Puxa. Obrigado.

Com o tempo, ganhou uma reputação. Era de confiança. Um dia, foi procurado por um amigo com uma oferta de emprego. O salário era enorme.

- Por que eu? – quis saber.

- A posição é de muita responsabilidade – disse o amigo. – Recomendei você.

- Por quê?

- Pela sua descrição.

Subiu na vida. Dele se dizia que sabia tudo sobre todos, mas nunca abria a boca para falar de ninguém. Além de bem-informado, um gentleman. Até que recebeu um telefonema. Uma voz misteriosa que disse:

- Sei de tudo.

- Co- como?

- Sei de tudo.

- Tudo o quê?

- Você sabe.

Resolveu desaparecer. Mudou-se de cidade. Os amigos estranharam o seu desaparecimento repentino. Investigara. O que ele estaria tramando? Finalmente foi descoberto numa praia remota. Os vizinhos contam que a voz que uma noite vieram muitos carros e cercaram a casa. Várias pessoas entraram na casa. Ouviram-se gritos. Os vizinhos contam que mais se ouvia era a dele, gritando:

- Era brincadeira! Era brincadeira!

Foi descoberto de manhã, assassinado. O crime nunca foi desvendado. Mas as pessoas que o conheciam não têm dúvidas sobre o motivo.

Sabia demais.

(Luis Fernando VeríssimoComédias da vida privada. Porto Alegre: L&PM, 1995. P. 189-91.)



4. O lixo

Encontram-se na área de serviço. Cada um com seu pacote de lixo. É a primeira vez que se falam.

- Bom dia...

- Bom dia.

- A senhora é do 610.

- E o senhor do 612

- É.

- Eu ainda não lhe conhecia pessoalmente...

- Pois é...

- Desculpe a minha indiscrição, mas tenho visto o seu lixo...

- O meu quê?

- O seu lixo.

- Ah...

- Reparei que nunca é muito. Sua família deve ser pequena...

- Na verdade sou só eu.

- Mmmm. Notei também que o senhor usa muito comida em lata.

- É que eu tenho que fazer minha própria comida. E como não sei cozinhar...

- Entendo.

- A senhora também...

- Me chame de você.

- Você também perdoe a minha indiscrição, mas tenho visto alguns restos de comida em seu lixo. Champignons, coisas assim...

- É que eu gosto muito de cozinhar. Fazer pratos diferentes. Mas, como moro sozinha, às vezes sobra...

- A senhora... Você não tem família?

- Tenho, mas não aqui.

- No Espírito Santo.

- Como é que você sabe?

- Vejo uns envelopes no seu lixo. Do Espírito Santo.

- É. Mamãe escreve todas as semanas.

- Ela é professora?

- Isso é incrível! Como foi que você adivinhou?

- Pela letra no envelope. Achei que era letra de professora.

- O senhor não recebe muitas cartas. A julgar pelo seu lixo.

- Pois é...

- No outro dia tinha um envelope de telegrama amassado.

- É.

- Más notícias?

- Meu pai. Morreu.

- Sinto muito.

- Ele já estava bem velhinho. Lá no Sul. Há tempos não nos víamos.

- Foi por isso que você recomeçou a fumar?

- Como é que você sabe?

- De um dia para o outro começaram a aparecer carteiras de cigarro amassadas no seu lixo.

- É verdade. Mas consegui parar outra vez.

- Eu, graças a Deus, nunca fumei.

- Eu sei. Mas tenho visto uns vidrinhos de comprimido no seu lixo...

- Tranquilizantes. Foi uma fase. Já passou.

- Você brigou com o namorado, certo?

- Isso você também descobriu no lixo?

- Primeiro o buquê de flores, com o cartãozinho, jogado fora. Depois, muito lenço de papel.

- É, chorei bastante, mas já passou.

- Mas hoje ainda tem uns lencinhos...

- É que eu estou com um pouco de coriza.

- Ah.

- Vejo muita revista de palavras cruzadas no seu lixo.

- É. Sim. Bem. Eu fico muito em casa. Não saio muito. Sabe como é.

- Namorada?

- Não.

- Mas há uns dias tinha uma fotografia de mulher no seu lixo. Até bonitinha.

- Eu estava limpando umas gavetas. Coisa antiga.

- Você não rasgou a fotografia. Isso significa que, no fundo, você quer que ela volte.

- Você já está analisando o meu lixo!

- Não posso negar que o seu lixo me interessou.

- Engraçado. Quando examinei o seu lixo, decidi que gostaria de conhecê-la. Acho que foi a poesia.

- Não! Você viu meus poemas?

- Vi e gostei muito.

- Mas são muito ruins!

- Se você achasse eles ruins mesmo, teria rasgado. Eles só estavam dobrados.

- Se eu soubesse que você ia ler...

- Só não fiquei com eles porque, afinal, estaria roubando. Se bem que, não sei: o lixo da pessoa ainda é propriedade dela?

- Acho que não. Lixo é domínio público.

- Você tem razão. Através do lixo, o particular se torna público. O que sobra da nossa vida privada se integra com a sobra dos outros. O lixo é comunitário. É a nossa parte mais social. Será isso?

- Bom, aí você já está indo fundo demais no lixo. Acho que...

- Ontem, no seu lixo...

- O quê?

- Me enganei, ou eram cascas de camarão?

- Acertou. Comprei uns camarões graúdos e descasquei.

- Eu adoro camarão.

- Descasquei, mas ainda não comi. Quem sabe a gente pode...

- Jantar juntos?

- É.

- Não quero dar trabalho.

- Trabalho nenhum.

- Vai sujar a sua cozinha?

- Nada. Num instante se limpa tudo e põe os restos fora.

- No seu lixo ou no meu?

                              Luis Fernando VeríssimoO Analista de Bagé. L&PM, 1981.


                      
                      5. Pai não entende nada

_ Um biquíni novo?

_ É, pai.

_ Você comprou um no ano passado!

_ Não serve mais, pai. Eu cresci.

_ Como não serve? No ano passado você tinha 14 anos, este ano tem 15. Não cresceu tanto assim.

_ Não serve, pai.

_ Está bem, está bem. Toma o dinheiro. Compra um biquíni maior.

_ Maior não, pai. Menor.

Aquele pai, também, não entendia nada.

                                                                         Luis Fernando Veríssimo.


                          
                                 6. O Homem que Vivia Anedotas

— Sempre deu tudo errado comigo. Desde criança.

— Compreendo.

— Na escola, não conseguia prestar atenção em nada.

Estava sempre pensando em mulher nua.

— Espera aí. Você é…

— Sou. O Juquinha. Todo mundo ficou sabendo das minhas histórias, virei anedota.

— Mas as histórias até que eram engraçadas.

— Engraçadas para quem não foi expulso da escola, como eu.

Meus pais me mandaram a um médico para curar minha obsessão. Um psiquiatra.

— Não foi esse o médico que...

— É. Começou a me mostrar desenhos. Uma cadeira.

Um chapéu. Um telefone. Pediu para eu me concentrar.

— E aí você disse…

— Eu disse: "Me concentrar como, se o senhor não pára de mostrar figurinha erótica?".

O senhor está rindo porque não foi com o senhor. Fiquei anos em tratamento.

— Desculpa. Eu não estava rindo de você. Continue.

— Como não tinha educação, fui ser mecânico. Não deu certo.

— Por quê?

— Sabe aquela história do cara que acendeu um fósforo dentro do tanque

do carro para ver se tinha gasolina, e tinha?

— Foi você?

— Foi. No hospital, tiveram que me reconstituir.

Pegaram as partes e juntaram de novo. Tudo bem, só que…

— Só que para ouvir direito, você precisava levantar o braço! Essa é ótima.

— Ótima porque não foi com o senhor.

— Desculpe. Foi horrível.

— Quando saí do hospital comprei uma motocicleta.

Uma noite na estrada, vi os holofotes de duas motocicletas que

vinham em sentido contrário. Só por farra, resolvi passar com a minha entre as duas.

— E era um automóvel. Essa eu conheço.

— Voltei para o hospital. Tiraram radiografias. Eu estava péssimo.

Quando o médico disse quanto ia custar o tratamento, eu disse que não podia pagar.

— E ele?

— Ele disse que por um preço módico mandava retocar as radiografias.

— Grande! Quer dizer, horrível. E seus pais?

— Está vendo esse relógio? Está na família há gerações.

— É uma beleza.

— No seu leito de morte, poucos minutos antes de expirar, papai me vendeu.

— Boa, boa. Quer dizer, triste, triste.

— Me casei. Não durou muito. Minha mulher estava convencida que era um refrigerador.

— Realmente, não dava para continuar vivendo com uma louca.

— O pior não era isso. O pior é que ela dormia com a boca aberta e a luz não

me deixava dormir. O senhor está rindo outra vez.

— Não posso me conter. É que você teve uma vida engraçada.

— Engraçada? Trágica. Tudo comigo deu errado. As pessoas riem de sádicas.

— Você tem razão.

— Para esquecer tudo, fui fazer uma viagem. Quando o avião estava a dez mil metros de altura,

ouviu-se uma voz que dizia: "Isto é uma gravação. Este avião não tem piloto.

É dirigido por um sistema totalmente automático que substitui com vantagem

o controle humano. Não há com o que se preocupar.

O sistema foi exaustivamente testado é absolutamente

aprova de falhas, de falhas, de falhas…".

— O avião caiu e foi assim que você veio parar aqui?

— Não, São Pedro. O avião caiu no mar, eu sobrevivi e passei uma

temporada numa ilha deserta com uma mulher. Só que a mulher era a Betty Friedman.

— Acho que já vi esse cartum.

— Pois é. Aí fui salvo e ainda passei por várias anedotas até resolver me matar.

Não conseguia fazer anda certo. Só restava o suicídio. Dei um tiro na cabeça.

— E aqui está você.

— Não. Errei o tiro. Depois fiquei tão contente de ainda estar vivo que dei um tiro para o ar.

Aí acertei na cabeça. E aqui estou eu. Livre, finalmente, das anedotas. O senhor ainda está rindo!

— Meu filho você sabe quantas anedotas de São Pedro na porta do céu existem?

— Não, São Pedro. Por favor. Não!

— O que é que eu posso fazer? Esta é uma delas. Houve um maremoto em Copacabana,

morreu todo mundo e nós estamos com o céu lotado.

— Lotado? Mas só a população de Copacabana lota o céu?

— É que tinha os argentinos.

Você só vai encontrar lugar no Purgatório, e na lista de espera.


Luís Fernando Veríssimo. "Sexo na Cabeça", L&PM Editores - Porto Alegre, 1982, pág. 15.

 


 




 


 

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.