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Legitimidade do Estado e dos Governos
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A Filosofia Política preocupa-se com a
constituição, função e sentido do Estado e da sociedade. A Filosofia do
Direito ocupa-se das Leis e Instituições ordenadoras da sociedade e em
particular dos seus fundamentos.
Dois dos problemas centrais da reflexão da
Filosofia Política consistem em responder às seguintes questões:
a ) Qual a Legitimidade do Estado e do Poder
Político ?
b ) Quais os princípios estruturantes da
sociedade que o Estado deve garantir ?
1. Legitimidade
O Estado assenta numa relação de domínio de uns
homens sobre outros. Uma relação apoiada pela violência considerada, em
princípio, legitima quando exercida pelo Estado. Só o Estado tem o direito de
coagir e obrigar os cidadãos a agir no respeito pela legalidade estabelecida.
Possui o monopólio da violência física legitima. Para que um Estado exista é
necessário que os dominados aceitem obedecer à autoridade que quem detêm o
poder no Estado.
Qual a razão porque os homens obedecem ? Porque
razão reconhecem e aceitam este poder de uns sobre outros ? A resposta mais
simples é porque acreditam que estes tem legitimidade para o exercer. A
legitimidade ou justificação do poder assenta portanto de uma crença ou
fundada convicção (interesse, necessidade, conveniência ) para que assim
seja.
Ao longo da história muitas tem sido as teorias e
justificações sobre a legitimidade do poder, Max Weber (A Política como
Vocação) sintetizou as seguintes:
- Tradição. A legitimidade do poder é justificado
através de costumes ancestrais, cujos detentores se afirmam herdeiros. O
exemplo paradigmático são as antigas monarquias absolutas.
- Força. A legitimidade do poder é justificado
pelo carisma, coragem, qualidades excepcionais ou pela devoção absoluta ao
país de alguém que se afirma apto a dirigir uma sociedade. A maioria dos
ditadores utilizou este tipo de justificações para se
auto legitimar.
- Legitimidade Democrática. A legitimidade
assenta, neste caso, no respeito pelo Direito estabelecido, nomeadamente
quando os cidadãos em liberdade escolheram os seus representantes (delegação
de poder). É este tipo de legitimidade que vamos abordar, pois ele é próprio
das nossas sociedades democráticas.
As revoltas ou revoluções estão quase sempre
ligadas à quebra da confiança das populações nos governos ou no Estado,
deixando-os de reconhecer como legitimo o poder que
detêm.
Os filósofos que vamos estudar - Aristóteles
(384-322 a.C.), Thomas Hobbes (1588-1679), John Lock(1632-1704),
Jean-Jacques Rousseau (1712-1778) e John Rawls
(1921-2002) e Habermas (1929) -, trouxeram contributos muito
importantes para pensarmos esta questão.
2. Princípios
Quais os princípios que o Estado deve garantir ?
Estes princípios procuram prevenir também a expansão totalitária dos Estados,
isto é, o exercício incontrolado do seu poder. Na verdade, o poder que o
Estado possui se é suficientemente forte para proteger os cidadãos tem
igualmente um poder capaz de os oprimir e dispor arbitrariamente dos recursos
coletivos para beneficiar apenas uma minoria. Os Estados modernos ocidentais
nasceram da luta das populações contra as arbitrariedades dos Estados
absolutos. Neste sentido, a história da liberdade do cidadão é uma história
da restrição e do controlo do poder do Estado (Reinhold Zippelius, Teoria
Geral do Estado).
Desde o século XVIII que foram sendo consagrados
três grandes princípios - Liberdade, Igualdade e Solidariedade - que
são hoje aceites como matrizes dos regimes democráticos:
- A Liberdade
é um conceito com múltiplos significados. O célebre artigo IV da
Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão (Agosto de 1789), definia a
Liberdade da seguinte forma: "A Liberdade consiste em poder fazer aquilo
que não prejudica o outro". O Outro é visto como o limite à minha
liberdade, mas igualmente como a sua garantia. Ao negar a sua liberdade,
estou a negar a minha (princípio da reciprocidade).
A liberdade está hoje associada a um conjunto de
direitos: de expressão, de reunião, de manifestação, de circulação, de
propriedade, etc.
- A Igualdade
é, como dissemos, um dos princípios centrais dos regimes democráticos.
Uma das principais fontes de conflitos sociais reside nas suas profundas
desigualdades que todos constatamos nas nossas sociedades. Uma minoria
tende historicamente a concentrar na sua posse toda a riqueza gerada, assim
como a ter um tratamento privilegiado pelos diversos Estados. Se a existência
de um certo grau de desigualdades tem sido justificado como essencial para
estimular a criatividade dos indivíduos, ao permitir-lhes acumular os ganhos
adquiridos pelas suas iniciativas, a verdade é que estas desigualdades podem
não deixam de acentuar as tensões sociais. Se as mesmas forem muitos graves,
a própria ordem social é posta em causa. A maioria da população sentindo-se
lesada nas suas expectativas, acaba por provocar rupturas sociais (revoltas
ou revoluções sociais).
A Igualdade está hoje associada a um conjunto de
direitos: de representação, de dignidade, de equidade, etc
- A Solidariedade
é um princípio que resulta da consciência da nossa interdependência: Nenhuma
sociedade pode subsistir se os seus membros se recusarem a contribuir para o
Bem Comum.
A legitimidade de um Estado ou de um Governo
estão hoje intimamente ligadas ao respeito destes valores.
3. Novos Consensos
No final do século XX emergiu, após um longo
processo histórico, um novo critério para avaliar a legitimidade dos Estados
e dos Governos: o respeito que têm pelos Direitos Universais do Homem.
Um governo que não respeita os princípios
consagrados na Declaração Universal dos Direitos Humanos poderá ser
considerado legitimo?. O que é mais importante em termos de Direitos
Fundamentais: a perspectiva nacional ou a universal ? A perspectiva
universal tem-se vindo a impor sobre a nacional.
Estamos perante uma nova concepção de
legitimidade que implica uma limitação da soberania nacional, que até finais
do século XX era considerada um privilégio absoluto de cada Estado e que lhes
permitia tratarem em cada país os cidadãos da forma como entendiam.
Os Estados tem hoje que respeitar os Direitos
Humanos, caso contrário são alvo de ações internacionais, como campanhas
internacionais de denúncia que afectam profundamente a sua imagem no mundo,
mas também as relações que mantém com outros Estados.
Esta nova concepção está intimamente ligada às
característica da sociedade planetária em que vivemos, onde se tornou cada
vez mais difícil aos governos ocultar o que se passa no interior de cada
país. A informação que passou a ser veiculada sobre os inúmeros casos de
violação de Direitos Humanos que ocorrem em muitos Estados gerou uma nova
sensibilidade na opinião pública mundial para estes problemas,
estimulando um crescente consenso em torno da necessidade da defesa destes
direitos universais. A rapidez na circulação da informação à escala
planetária deram uma enorme força a ações de protesto e de denúncia destas
violações, numa escala sem paralelo no passado.
A primazia dos Direitos Humanos sobre as
soberanias nacionais, nas últimas décadas tem-se manifestado de diversas
maneiras:
a) Convenções Internacionais. Desde aprovação da Declaração Universal dos Direitos Humanos (1948),
tem-se sucedido as convenções internacionais que consagram um conjunto de
Direitos e valores supranacionais. O caminho não tem sido linear, mas
mostra-se imparável. Um dos momento decisivos deste percurso foi a
assinatura, em 1975, da Ata Final da Conferência de Helsínquia (1975), a
qual estabelecia, no seu princípio nº.7, o dever que que incumbe a cada
Estado respeitar os direitos humanos e as liberdades fundamentais dos seus
cidadãos. Muitas outras convenções tem sido estabelecidas na mesma linha de
vincularem os Estados a compromissos internacionais neste
domínio.
b ) Propaganda Ideológica. A partir da década de 70 do século XX, os EUA, passaram a usar o
valor universal dos Direitos Humanos como uma arma ideológica para atacarem
certos Estados que alegadamente os violavam. Apesar do seu caráter
oportunistico e muitas vezes hipócrita, a verdade é que muitos outros Estados
passaram a usar esta arma ideológica para atacarem outros que os não cumprem,
reforçando desta forma a força destes direitos e valores.
b ) Intervenções militares internacionais. Muitas intervenções militares passaram a usar estes direitos, como
justificação. Algumas ditaduras tem sido derrubadas sob o pretexto de que
violavam os direitos humanos.
c ) Organizações Internacionais. Num esforço de institucionalizar esta nova concepção, tem surgido
várias organizações internacionais destinadas a denunciar ou julgar todos
aqueles que violam os direitos humanos. A última das grandes organizações
neste domínio é o Tribunal Penal Internacional (TPI). O TPI foi criado
em 1998 e tem por missão julgar todas as pessoas que tenham cometido crimes
de genocídio, de guerra ou contra a humanidade, como escravatura,
discriminação racional (apartheid ), extermínio de pessoas, assassinatos,
desaparecimentos forçados, torturas, sequestros, agressões e entre outras. O
TPI tem a sua sede em Haia (Holanda).
A legitimidade dos Estados e dos Governos, deixou
assim de ser vista apenas à luz do Direito interno de cada país, para ser
considerada num plano internacional com base em valores assumidos como
universais
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quarta-feira, 4 de setembro de 2013
A legimidade do Estado e dos Governos
Funções morfológicas e sintáticas da palavra Que
. Funções da palavra "que"
Funções morfológicas
A palavra que pode pertencer às seguintes classes gramaticais:
a) Substantivo
Há nisso um quê de mistério.
b) Pronome
- adjetivo interrogativo:
Que livros você leu? (= quais)
A que filme você assistiu ontem? (= qual)
- substantivo interrogativo:
O que viste na Bahia? (= que coisa)
De que elas estavam falando? (= que coisa)
- adjetivo indefinido:
Veja que horas são. (= quantas)
- substantivo indefinido:
Não compreendo por que não estudas. (= que motivo)
- relativo:
Os amigos que me restam são de data recente.
c) Preposição (equivalente à preposição de)
Você tem que comparecer à reunião.
Doença é pior que todas as coisas.
d) Advérbio de intensidade (refere-se a um adjetivo)
Que triste é a solidão! (=quão)
Que difícil foi o exame! (=quão)
e) Interjeição
Quê! Eles saíram!
Quê! Todos morreram!
f) Partícula expletiva (ou de realce)
Quase que ele morreu.
O último que chegar que feche a porta.
g) Conjunção subordinativa
- Integrante:
É justo que ele seja recompensado.
"Desconfiei de que você armava um plano qualquer."
- Final:
Faço votos que seja feliz.
Gritamos que ele parasse.
Funções morfológicas
A palavra que pode pertencer às seguintes classes gramaticais:
a) Substantivo
Há nisso um quê de mistério.
b) Pronome
- adjetivo interrogativo:
Que livros você leu? (= quais)
A que filme você assistiu ontem? (= qual)
- substantivo interrogativo:
O que viste na Bahia? (= que coisa)
De que elas estavam falando? (= que coisa)
- adjetivo indefinido:
Veja que horas são. (= quantas)
- substantivo indefinido:
Não compreendo por que não estudas. (= que motivo)
- relativo:
Os amigos que me restam são de data recente.
c) Preposição (equivalente à preposição de)
Você tem que comparecer à reunião.
Doença é pior que todas as coisas.
d) Advérbio de intensidade (refere-se a um adjetivo)
Que triste é a solidão! (=quão)
Que difícil foi o exame! (=quão)
e) Interjeição
Quê! Eles saíram!
Quê! Todos morreram!
f) Partícula expletiva (ou de realce)
Quase que ele morreu.
O último que chegar que feche a porta.
g) Conjunção subordinativa
- Integrante:
É justo que ele seja recompensado.
"Desconfiei de que você armava um plano qualquer."
- Final:
Faço votos que seja feliz.
Gritamos que ele parasse.
- Causal:
"Trevas, caí, que o dia é morto."
"Antes que cases, olha o que fazes, que não é nó que desates."
- Comparativa:
Os homens são mais ponderados que as mulheres.
- Temporal:
"Porém já cinco sóis eram passados que dali nos partíramos."
-Consecutiva:
Estudou tanto, que conseguiu a aprovação.
Tão penetrante foi seu olhar, que todos se calaram.
- Concessiva:
Velho que é, pratica esporte.
Muito que ele come, nunca engorda.
Que tenha estudado, não conseguiu aprovação.
h) Conjunção coordenativa
- Aditiva:
"Dize-me com quem andas, que te direi quem és."
"Maravilha feita de Deus que não de humilde braço."
- Explicativa:
Não corras, que podes morrer.
Não saiam, que vai chover.
- Adversativa:
Façam eles, que não eu.
"O medo guarda a vinha que não o vinheteiro."
- Alternativa:
Uma vez que outra, ele estuda.
Que permitam, que não permitam, irei vê-la.
Funções sintáticas
O pronome que pode desempenhar as seguintes funções sintáticas:
a) Sujeito
Há paixões que dominam os impérios.
"Quero ver do alto o horizonte,
Que foge sempre de mim."
b) Objeto direto
Sofro as penas que eu próprio busquei..
Os livros que compramos são interessantes.
c) Objeto indireto
A pessoa a que me referi, chegou.
d) Predicativo
"Não conheço que fui no que hoje sou."
e) Adjunto adnominal
A que filme você assistiu ontem?
Que horas são?
f) Complemento nominal
O projeto a que sou favorável é este e não aquele.
g) Adjunto adverbial
Esta é a escola em que estudo.
h) Agente da passiva
Encontrou-se a arma por que ela foi ferida
a) Sujeito
Há paixões que dominam os impérios.
"Quero ver do alto o horizonte,
Que foge sempre de mim."
b) Objeto direto
Sofro as penas que eu próprio busquei..
Os livros que compramos são interessantes.
c) Objeto indireto
A pessoa a que me referi, chegou.
d) Predicativo
"Não conheço que fui no que hoje sou."
e) Adjunto adnominal
A que filme você assistiu ontem?
Que horas são?
f) Complemento nominal
O projeto a que sou favorável é este e não aquele.
g) Adjunto adverbial
Esta é a escola em que estudo.
h) Agente da passiva
Encontrou-se a arma por que ela foi ferida
créditos:http://aelison.blogspot.com.br
terça-feira, 27 de agosto de 2013
Entrevista com Philippe Perrenoud sobre a deocratização do ensino
Entrevista com Philippe
Perrenoud sobre a democratização do ensino
Para o sociólogo suíço, o professor precisa de
capacitação para se tornar um tradutor do conhecimento e conseguir modificar
sempre sua maneira de explicar até que todos os alunos aprendam
Márcio
Ferrari (novaescola@atleitor.com.br)
Philippe
Perrenoud. Foto: Juliet Piper
As mudanças de rumo que ocorreram na educação
brasileira na última década não foram fruto do acaso. Elas buscaram responder a
um desafio: desenvolver no aluno uma série de competências e prepará-lo para
entender e transformar o mundo em que vive. As competências são objeto de
estudo do suíço Philippe Perrenoud, cujas ideias sobre prática pedagógica
influenciaram as reformas educacionais no Brasil.
Em sua
última visita ao país, em julho, para participar de um seminário sobre educação
e competitividade econômica realizado em Brasília, Perrenoud questionou a
validade do próprio tema do encontro, que considerou "excessivamente
ambíguo". Apesar disso, reconheceu ser "inevitável" levar em
conta a competitividade de um país em tempos de economia global ao investir na
educação. No sistema educacional, ele distingue duas instâncias de competição
igualmente prejudiciais. A primeira é a que ocorre dentro de uma escola ou de
uma sala de aula. A segunda é a que acontece entre as escolas e que pode
levá-las a recusar os chamados "estudantes de risco", em lugar de dar
oportunidade a todos. "Em educação, não deve haver perdedores", ele justifica.
Com a mesma ênfase que coloca na importância da universalização do ensino, o especialista fala das novas ambições e perspectivas educacionais.
Por que o desempenho do Brasil e dos países da América Latina em geral no ranking internacional de educação ainda é tão ruim?
Com a mesma ênfase que coloca na importância da universalização do ensino, o especialista fala das novas ambições e perspectivas educacionais.
Por que o desempenho do Brasil e dos países da América Latina em geral no ranking internacional de educação ainda é tão ruim?
PERRENOUD
Em uma pesquisa recente a esse respeito, vi que o Brasil ocupava a 37a posição.
Mas mesmo a Suíça, que é um país rico e desenvolvido, ficava na 17a. Então, não
há motivo para desespero. Existem grandes desigualdades mesmo entre nações
muito ricas. Talvez haja tanta distância entre a Finlândia e a Suíça, que são
dois países europeus pequenos e ricos, quanto entre a Suíça e o Brasil. Não é
apenas uma questão de desenvolvimento, mas um conjunto de fatores complexos. O
Brasil enfrenta problemas diversos e, portanto, não me surpreende que a
educação brasileira não seja, hoje, ideal. É um desafio extraordinário
mobilizar tantos recursos e pessoas. Nenhum governo pode fazer milagres.
A que o senhor atribui o sucesso de suas ideias aqui no Brasil?
A que o senhor atribui o sucesso de suas ideias aqui no Brasil?
PERRENOUD
Sei do que estou falando, tento ser concreto e busco não me afastar da
realidade prática. Além disso, talvez os problemas enfrentados pela escola
sejam muito semelhantes em todos os países, apesar das desigualdades de
desenvolvimento e da diferente posição geográfica. Em lugar nenhum a educação é
eficaz o bastante. O fracasso escolar e a exclusão são problemas universais,
assim como a necessidade de levar em conta as diferenças individuais e de uma
pedagogia mais construtiva. Por isso, acho natural que possamos nos reconhecer
em trabalhos que vêm de outros continentes.
Os problemas na educação são consequência da crise do mundo atual ou são crônicos?
Os problemas na educação são consequência da crise do mundo atual ou são crônicos?
PERRENOUD
Eles mostram uma redefinição das ambições das políticas educacionais. No século
19, a idéia de educação como um direito de todos era revolucionária. Até hoje,
no entanto, alguns países conseguiram escolarizar apenas 10% ou 20% de sua
população. Já nas nações desenvolvidas, atualmente quase todo mundo vai à
escola. Mas, onde todos já sabem ler, escrever e contar, isso já não basta. À
medida que o objetivo da escolarização é atingido, ele se desloca. É normal que
o sistema esteja sempre em discordância com relação às ambições que se
estabelecem na modernidade, na complexidade, na tecnologia.
O peso de novas metas pode desestruturar o sistema educacional?
O peso de novas metas pode desestruturar o sistema educacional?
PERRENOUD
Não inventamos novas ambições para provocar o fracasso do sistema. Deve-se
reconhecer que o nível mundial de educação jamais esteve tão elevado e as
pessoas instruídas jamais foram tão numerosas. Mas, diante das necessidades de
uma sociedade cada vez mais complexa, existe um déficit não absoluto, mas
relativo às exigências dos tempos modernos. É fundamental compreender isso. A
culpa não pode ser atribuída só à escola, mas à sociedade tecnológica, que é
multicultural, globalizada e apresenta aos indivíduos desafios enormes. Viver
hoje em dia é muito mais complexo do que há 50 anos: exige novos conhecimentos,
novas competências.
Há quem diga que muitas pessoas trabalham bem com a cabeça, muitas trabalham bem com as mãos, mas poucas sabem trabalhar com as duas ao mesmo tempo. O que o senhor pensa sobre isso?
Há quem diga que muitas pessoas trabalham bem com a cabeça, muitas trabalham bem com as mãos, mas poucas sabem trabalhar com as duas ao mesmo tempo. O que o senhor pensa sobre isso?
PERRENOUD
Essa ideia é um estereótipo. Todos nós trabalhamos com a cabeça. É impossível
fazer qualquer coisa sem ela. E mesmo em trabalhos intelectuais há muitos
aspectos práticos, como escrever, classificar, gerir o tempo. Não existe
oposição entre atividade intelectual e manual. Pelo contrário: é necessário
reconhecer que em toda tarefa existe uma parte de inteligência, sabedoria,
antecipação e raciocínio. Mesmo um lixeiro ou um porteiro, que parecem fazer
algo muito simples, estão sempre tomando decisões, avaliando prós e contras.
O Ensino Fundamental deve preparar para a prática?
O Ensino Fundamental deve preparar para a prática?
PERRENOUD
Mas que prática? A Educação Básica realmente não prepara para o exercício de
uma profissão, mas para a prática da cidadania, da vida social, associativa,
sexual, amorosa e familiar. Todas essas vidas são muito importantes, e é
possível associar a educação fundamental a elas.
O que o senhor pensa dos ciclos de aprendizagem, que no Brasil são vistos como uma solução de urgência contra a repetência?
O que o senhor pensa dos ciclos de aprendizagem, que no Brasil são vistos como uma solução de urgência contra a repetência?
PERRENOUD
Os ciclos de aprendizagem não são uma meta, mas um meio. Não são uma indicação
de modernidade ou uma estrutura complicada por puro prazer; são um instrumento
de trabalho. Devem ser o reflexo de uma pedagogia diferente.
Um dos desafios da educação atual é transpor a linguagem científica e tecnológica para a linguagem da escola. Como se capacitar melhor para isso?
Um dos desafios da educação atual é transpor a linguagem científica e tecnológica para a linguagem da escola. Como se capacitar melhor para isso?
PERRENOUD
Esse problema não é novo, mas está ganhando importância à medida que a cultura
científica se expande. Toda disciplina escolar exige um trabalho de
transposição, ou seja, deve tornar-se acessível a um público que não é composto
de pesquisadores ou produtores do saber. Dessa forma, toda escola se torna uma
imensa empresa de vulgarização, no bom sentido do termo. A formação de
professores exige não só que eles dominem o saber mas também que saibam fazer a
transposição desse saber. Como explicar frações a alunos de 12 anos? E números
negativos a adolescentes de 13? São conceitos muito complexos, que, se forem
explicados por alguém que não tem a competência da transposição, ou didática,
só serão compreendidos pelos melhores estudantes. Os outros passarão por burros
ou preguiçosos. Na verdade, a incapacidade é do educador. Traduzir é a
responsabilidade principal do professor. Não basta saber, senão todos nós
poderíamos lecionar. É necessário ter a competência específica para ser um
tradutor de conhecimento.
Como o professor pode se tornar um bom tradutor de conhecimento?
Como o professor pode se tornar um bom tradutor de conhecimento?
PERRENOUD
Essa competência deveria estar no centro da formação inicial, mas infelizmente
isso nem sempre acontece. Muitas vezes, no Ensino Fundamental, basta conhecer a
matéria para começar a lecionar. Nesse caso, é necessário rever a formação
inicial dos docentes para dar mais ênfase às competências de transposição e de
gerenciamento do saber. A habilidade se desenvolve ao longo da vida, à medida
que surgem os obstáculos. Alguém que explica frações e percebe que talvez
quatro de cada cinco alunos não entenderam absolutamente nada de sua aula
deverá tentar na aula seguinte ser mais concreto, achar novos exemplos. Esse
processo não deve acabar nunca, pois os estudantes se renovam e há sempre
alguns para os quais é necessário encontrar uma linguagem nova. Idealmente, um
professor que de início era compreendido por três crianças em uma classe de 30
passará a ser compreendido por seis, depois por nove e finalmente por todas.
Agir na Urgência e Decidir na Incerteza é o título de um de seus livros. Como o professor pode agir diante do imprevisível?
Agir na Urgência e Decidir na Incerteza é o título de um de seus livros. Como o professor pode agir diante do imprevisível?
PERRENOUD
Quanto mais qualificado for um profissional, maior deverá ser sua capacidade de
enfrentar o imprevisível. Isso se aprende, e não é apenas na carreira de
professor que é preciso improvisar. Como preparar as pessoas para isso? É
necessário trabalhar a dimensão afetiva: a angústia, o medo de improvisar ou a
resistência em abandonar uma estratégia habitual que se revela ineficaz. É uma
tarefa que exige lutar contra toda espécie de perfeccionismo e que demanda
tempo. A experiência ensina o profissional a discernir uma série de fatores. Um
professor experiente sabe o que acontece em sua classe, a tal ponto que seus
alunos pensam que ele tem olhos nas costas! Ele escuta ruídos, percebe quando
começa a agitação e quando a concentração diminui. Quanto maior sua capacidade
perceptiva, maior sua habilidade em improvisar.
Philippe Perrenoud, 60 anos, é doutor em sociologia e antropologia e professor da Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade de Genebra. Estudioso da evasão e das desigualdades na escola e especialista em práticas pedagógicas em instituições de ensino, é diretor do Laboratório de Pesquisas sobre a Inovação na Formação e na Educação (Life), também de Genebra.
Philippe Perrenoud, 60 anos, é doutor em sociologia e antropologia e professor da Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade de Genebra. Estudioso da evasão e das desigualdades na escola e especialista em práticas pedagógicas em instituições de ensino, é diretor do Laboratório de Pesquisas sobre a Inovação na Formação e na Educação (Life), também de Genebra.
Material retirado do site revistanovaescola.abril.com
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