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domingo, 19 de maio de 2013

Análise da crônica A MENTIROSA LIBERDADE

A mentirosa liberdade
                                                                                                                                             Lya Luft
Comecei a escrever um novo livro, sobre os mitos e mentiras que nossa cultura expõe em prateleiras enfeitadas, para que a gente enfie esse material na cabeça e, pior, na alma – como se fosse algodão-doce colorido. Com ele chegam os medos que tudo isso nos inspira: medo de não estar bem enquadrados, medo de não ser valorizados pela turma, medo de não ser suficientemente ricos, magros, musculosos, de não participar da melhor balada, do clube mais chique, de não ter feito a viagem certa nem possuir a tecnologia de ponta no celular. Medo de
não ser livres.
Na verdade, estamos presos numa rede de falsas liberdades. Nunca se falou tanto em liberdade, e poucas vezes fomos tão pressionados por exigências absurdas, que constituem o que chamo a síndrome do “ter de”. Fala-se em liberdade de escolha, mas somos conduzidos pela propaganda como gado para o matadouro, e as opções são tantas que não conseguimos escolher com calma. Medicados como somos (a pressão, a gordura, a fadiga, a insônia, o sono, a depressão e a euforia, a solidão e o medo tratados a remédio), cedo recorremos a expedientes, porque nossa libido, quimicamente cerceada, falha, e a alegria, de tanta tensão, nos escapa.
Preenchem-se fendas e falhas, manchas se removem, suspendem-se prazeres como sendo risco e extravagância, e nos ligamos no espelho: alguém por aí é mais eficiente, moderno, valorizado e belo que eu? Alguém mora num condomínio melhor que o meu? Em fileira ao longo das paredes, temos de parecer todos iguais nessa dança de enganos. Sobretudo, sempre jovens. Nunca se pôde viver tanto tempo e com tão boa qualidade, mas no atual endeusamento da juventude, como se só jovens merecessem amor, vitórias e sucesso, carregamos mais um ônus pesadíssimo e cruel: temos de enganar o tempo, temos de aparentar 15 anos se temos 30, 40 anos se temos 60, e 50 se temos 80 anos de idade. A deusa juventude traz vantagens, mas eu não a quereria para sempre:
talvez nela sejamos mais bonitos, quem sabe mais cheios de planos e possibilidades, mas sabemos discernir as coisas que divisamos, podemos optar com a mínima segurança, conseguimos olhar, analisar e curtir – ou nos falta o que vem depois: maturidade?
Parece que do começo ao fim passamos a vida sendo cobrados: O que você vai ser? O que vai estudar? Como? Fracassou em mais um vestibular? Já transou? Nunca transou? Treze anos e ainda não ficou? E ainda não bebeu? Nem experimentou uma maconhazinha sequer? E um Viagra para melhorar ainda mais? Ainda aguenta os chatos dos pais? Saiba que eles o controlam sob o pretexto de que o amam. Sai dessa! Já precisa trabalhar? Que chatice! E depois: Quarenta anos ganhando tão pouco e trabalhando tanto? E não tem aquele carro? Nunca esteve naquele resort?
Talvez a gente possa escapar dessas cobranças sendo mais natural, cumprindo deveres reais, curtindo a vida sem se atordoar. Nadar contra toda essa louca correnteza. Ter opiniões próprias, amadurecer, ajuda. Combater a ânsia por coisas que nem queremos, ignorar ofertas no fundo desinteressantes, como roupas ridículas e viagens sem graça, isso ajuda. Descobrir o que queremos e podemos é um bom aprendizado, mas leva algum tempo: não é preciso escalar o Himalaia social nem ser uma linda mulher nem um homem poderoso. É possível estar contente e ter projetos bem depois dos 40 anos, sem um iate, físico perfeito e grande fortuna. Sem cumprir tantas obrigações fúteis e inúteis, como nos ordenam os mitos e mentiras de uma sociedade insegura, desorientada, em crise. Liberdade não vem de correr atrás de “deveres” impostos de fora, mas de construir a nossa existência, para a qual, com todo esse esforço e desgaste, sobra tão pouco tempo. Não temos de correr angustiados atrás de modelos que nada têm a ver conosco, máscaras, ilusões e melancolia para aguentar a vida, sem liberdade para descobrir o que a gente gostaria mesmo de ter feito.
(Disponível em Artigos & Idéias, 21/03/2009, at 10:52 PM - VEJA – ONLINE, acessada em 10/04/09)

QUESTÃO 01
O principal objetivo do texto acima é:
a) entreter os leitores.
b) abalar a autoestima dos leitores.
c) levar os leitores à reflexão.
d) informar os leitores sobre os conceitos de liberdade.

QUESTÃO 02
linguagem conotativa (figurada) em todos os fragmentos, EXCETO:
a) “Preenchem-se fendas e falhas, manchas se removem, suspendem-se prazeres como sendo risco e extravagância, e nos ligamos no espelho.”
b) “Na verdade, estamos presos numa rede de falsas liberdades.”
c) “É possível estar contente e ter projetos bem depois dos 40 anos, sem um iate, físico perfeito e grande fortuna.”
d) “...novo livro, sobre os mitos e mentiras que nossa cultura expõe em prateleiras enfeitadas, para que a gente enfie esse material na cabeça e, pior, na alma..”

QUESTÃO 03
Releia o último parágrafo e atente para as afirmações abaixo:
I. O tipo de linguagem utilizada pela autora em todo o texto, mas em especial no último parágrafo, é inadequada a uma crônica publicada na mídia impressa (revista Veja) e eletrônica (Veja online).
II. A autora utiliza a primeira pessoa do plural, marcando-a também pelo uso da expressão pronominal “a gente”, aproximando-se do leitor pelo tom mais informal da linguagem.
III. O fragmento “sem cumprir tantas obrigações fúteis e inúteis, como nos ordenam os mitos e mentiras de uma sociedade insegura, desorientada, em crise” evidencia uma exploração intencional da sonoridade da língua, dando lhe matiz poético.
IV. Quando afirma que “ter opiniões próprias, amadurecer, ajuda”, pode-se inferir que a autora faz uma crítica aos mais jovens, supostamente volúveis e imaturos, que se deixam levar pelas cobranças externas.
Estão CORRETAS as afirmações feitas em:
a) I, II e III.
b) II, III e IV.
c) I, III e IV.
d) I , II, III, IV.

QUESTÃO 04
A cronista lança mão de vários recursos para tornar sua argumentação mais sedutora, atraente.
Identificaram-se alguns destes recursos nas opções abaixo. Assinale aquela em que a indicação estiver INCORRETA:
a) “Parece que do começo ao fim passamos a vida sendo cobrados...” (interlocução com o leitor, que é inserido na argumentação)
b) “...alguém por aí é mais eficiente, moderno, valorizado e belo que eu? Alguém mora num condomínio melhor que o meu?” (perguntas genéricas, que exemplificam a tese da autora da valorização das coisas em detrimento das pessoas)
c) “Fala-se em liberdade de escolha, mas somos conduzidos pela propaganda como gado para o matadouro, e as opções são tantas que não conseguimos escolher com calma.” (exposição de uma contradição e de comparação que
exemplificam a ansiedade das pessoas, atualmente)
d) “Talvez a gente possa escapar dessas cobranças sendo mais natural, cumprindo deveres reais, curtindo a vida sem se atordoar. Nadar contra toda essa louca correnteza.” (crítica da autora àqueles que se deixam levar pelo consumismo)

QUESTÃO 05
“Nunca se falou tanto em liberdade, e poucas vezes fomos tão pressionados por exigências absurdas, que constituem o que chamo a síndrome do ‘ter de’.” Com essa afirmação, Lya Luft mostra que a vida moderna é, EXCETO:
a) marcada por contradições.
b) mais divertida.
c) mais estressante.
d) cheia de compromissos.

QUESTÃO 06
A cronista utiliza-se de diversos recursos de linguagem para compor um texto de leitura fácil e agradável.
Assinale a opção em que o recurso destacado foi identificado INCORRETAMENTE:
a) “...não é preciso escalar o Himalaia social nem ser uma linda mulher nem um homem poderoso.” ( = metáfora)
b) “Fala-se em liberdade de escolha, mas somos conduzidos pela propaganda como gado para o matadouro...” ( = comparação)
c) “Nem experimentou uma maconhazinha sequer? E um Viagra para melhorar ainda mais? Ainda aguenta os chatos dos pais?” ( = ironia)
d) “Sem cumprir tantas obrigações fúteis e inúteis, como nos ordenam os mitos e mentiras de uma sociedade insegura, desorientada, em crise.” ( = pleonasmo)

QUESTÃO 07
Nas opções abaixo, assinalaram-se pronomes e se indicaram os termos a que se referem. Assinale a opção em que essa correlação esteja INCORRETA:
a) “Com ele chegam os medos que tudo isso nos inspira: medo de não estar bem enquadrados, medo de não ser valorizados pela turma...” (os medos)
b) “Saiba que eles o controlam sob o pretexto de que o amam.” (os chatos dos pais)
c) “...sobre os mitos e mentiras que nossa cultura expõe em prateleiras enfeitadas, para que a gente enfie esse material na cabeça e, pior, na alma..” (os mitos e mentiras)
d) “A deusa juventude traz vantagens, mas eu não a quereria para sempre: talvez nela sejamos mais bonitos...” (a deusa juventude)

Atente para o fragmento para responder às questões 8 e 9:
“Liberdade não vem de correr atrás de “deveres” impostos de fora, mas de construir a nossa existência, para a qual, com todo esse esforço e desgaste, sobra tão pouco tempo. Não temos de correr angustiados atrás de modelos que nada têm a ver conosco, máscaras, ilusões e melancolia para aguentar a vida, sem liberdade para descobrir o que a gente gostaria mesmo de ter feito.”

QUESTÃO 08
Dadas as afirmações:
I. As aspas na palavra deveres indica que é citação de outras pessoas.
II. A palavra máscaras deve ser compreendida de forma literal.
III. O verbo ter ocorre três vezes no fragmento, apresentando funções e sentidos diferentes em cada uma delas.
IV. A palavra modelos tem conotação ampla, podendo significar “coisas”,
“pessoas” ou “padrões de comportamento”, no fragmento acima.
Estão CORRETAS as afirmações:
a) I e II.
b) II e III.
c) III e IV.
d) I, II, III, IV.

QUESTÃO 09
Sublinharam-se alguns itens no fragmento. Abaixo, indicou-se corretamente a ideia indicada pelos mesmos, EXCETO:
a) A palavra “que”, pronome relativo, dá ideia de consequência.
b) A conjunção coordenativa “mas” dá ideia de contradição.
c) O conectivo “e”, coordenativo, imprime ideia de adição.
d) O conectivo “para” exprime ideia de finalidade.

QUESTÃO 10
Atente para o fragmento:
“Preenchem-se fendas e falhas, manchas se removem, suspendem-se prazeres como sendo risco e extravagância, e nos ligamos no espelho: alguém por aí é mais eficiente, moderno, valorizado e belo que eu? Alguém mora num condomínio melhor do que o meu? Em fileira ao longo das paredes, temos de parecer todos iguais nessa dança de enganos.”
Assinale a afirmativa INCORRETA:
a) O verbo “preencher” encontra-se no plural porque tem sujeito composto e está na voz passiva.
b) Com as comparações nas duas perguntas apresentadas, a autora quer mostrar a homogeneização que é representada, logo a seguir, pela afirmação de que “temos de parecer todos iguais”.
c) No fragmento, a autora dá a entender que as manchas se removem por si mesmas, ao usar o pronome “se”.
d) Ao dizer que nos ligamos ao “espelho”, para ver se há alguém “mais belo do que eu”, a autora nos remete a passagem de um conto de fadas


GABARITO
1C     2C     3B     4D     5B
6D     7A     8C     9A    10C
 



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