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segunda-feira, 25 de março de 2013

Texto O Poder Ultrajovem

O PODER ULTRAJOVEM
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        - Quero lasanha.
         Aquele anteprojeto de mulher - quatro anos, no máximo, desabrochando na ultraminissaia - entrou decidido no restaurante. Não precisava de menu, não precisava de mesa, não precisava de nada. Sabia perfeitamente o que queria. Queria lasanha.
         O pai, que mal acabara de estacionar o carro em uma vaga de milagre, apareceu para dirigir a operação-jantar, que é, ou era, da competência dos senhores pais.
         - Meu bem, venha cá.
         - Quero lasanha.
         - Escute aqui, querida. Primeiro, escolhe-se a mesa.
         - Não, já escolhi. Lasanha.
         Que parada - lia-se na cara do pai. Relutante, a garotinha condescendeu em sentar-se primeiro, e depois encomendar o prato:
         - Vou querer lasanha.
         - Filhinha, por que não pedimos camarão? Você gosta tanto de camarão.
         - Gosto, mas quero lasanha.
         - Eu sei, eu sei que você adora camarão. A gente pede uma fritada bem bacana de camarão. Tá?
         - Quero lasanha, papai. Não quero camarão.
         - Vamos fazer uma coisa. Depois do camarão a gente traça uma lasanha. Que tal?
         - Você come camarão e eu como lasanha.
        O garçom aproximou-se, e ela foi logo instruindo:
        - Quero uma lasanha.
        O pai corrigiu:
        - Traga uma fritada de camarão pra dois. Caprichada.
        A coisinha amuou. Então não podia querer? Queriam querer em nome dela? Por que é proibido comer lasanha? Essas interrogações também se liam no seu rosto, pois os lábios mantinham reserva.         Quando o garçom voltou com os pratos e o serviço, ela atacou:
        - Moço, tem lasanha?
        - Perfeitamente, senhorita.
        O pai, no contra-ataque:
       - O senhor providenciou a fritada?
       - Já, sim, doutor.
       - De camarões bem grandes?
       - Daqueles legais, doutor.
        - Bem, então me vê um chinite, e pra ela... O que é que você quer, meu anjo?
        - Uma lasanha.
        - Traz um suco de laranja pra ela.
        Com o chopinho e o suco de laranja, veio a famosa fritada de camarão, que, para surpresa do restaurante inteiro, interessado no desenrolar dos acontecimentos, não foi recusada pela senhorita. Ao contrário, papou-a, e bem. A silenciosa manducação atestava, ainda uma vez, no mundo, a vitória do mais forte.
       - Estava uma coisa, heim? - comentou o pai, com um sorriso bem alimentado. - Sábado que vem, a gente repete... Combinado?
      - Agora a lasanha, não é, papai?
      - Eu estou satisfeito. Uns camarões tão geniais! Mas você vai comer mesmo?
      - Eu e você, tá?
      - Meu amor, eu...
      - Tem de me acompanhar, ouviu? Pede a lasanha.
      O pai baixou a cabeça, chamou o garçom, pediu. Aí, um casal, na mesa vizinha, bateu palmas. O resto da sala acompanhou. O pai não sabia onde se meter. A garotinha, impassível. Se, na conjuntura, o poder jovem cambaleia, vem aí, com força total, o poder ultrajovem.

ANDRADE, Carlos Drummond. Crônicas I - “Para Gostar de Ler 1”. São Paulo: Editora Ática; 2005. 27º Edição                                                                         
                    A T I V I D A D E S                                                                    

Quais são expressões utilizadas pelo autor para deixar claro que a filha era muito jovem?

Faça a descrição física da garotinha:

Faça a descrição psicológica da menina:


O pai demonstrou ter boas qualidades? Quais?
 EDUCADO          PRESTATIVO          GULOSO          MANDÃO

A garotinha era decidida e firme em suas decisões. Qual foi o fato que confirmou a afirmação?


Quantas vezes a menina pediu para comer lasanha?
dez        doze        treze        quatorze

O pai era carinhoso ou autoritário com a filha? Copie expressões que confirmem sua resposta.


Qual foi a atitude da criança quando o prato de fritada de camarões foi servido?
Recusou-se a comer demonstrando ter personalidade.
Comeu com má vontade por ter medo do pai.
Comeu tudo sem fazer cerimônia e se esqueceu da lasanha.
Comeu, porém, não se esqueceu da lasanha.

Quem venceu a questão?

O casal, na mesa vizinha, estava concordando com o pai ou com a filha? Como você percebeu isso?

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